A Rosa do Deserto
- Bruno Gonçalves

- 15 de jun.
- 17 min de leitura
Atualizado: 21 de jun.
יְשֻׂשׂוּם מִדְבָּר וְצִיָּה... וְתָגֵל עֲרָבָה וְתִפְרַח כַּחֲבַצָּלֶת
“O deserto e a terra árida se alegrarão;
a planície exultará e florescerá como a rosa.”
(Yeshayahu/Isaías 35:1)
A alma floresce precisamente no lugar da aridez, do silêncio e da ausência de domínio humano. O deserto — מִדְבָּר / midbar — é o espaço onde todas as estruturas ordinárias se desfazem: não há cidade, palácio, mercado, vaidade, posse ou distração; por isso, nossos mestres, de abençoada memória, ensinam que quem não se faz como um deserto, הפקר / hefker, “sem posse de si”, não pode adquirir a sabedoria e a Torá (Bamidbar Rabbah 1:7). O deserto exterior torna-se, assim, imagem do deserto interior. A consciência que desce de sua superfície discursiva, abandona o ruído do ego e entra em recolhimento profundo.
É nessa chave que se pode comparar o deserto à descida para a Merkavá. Embora a experiência seja descrita como ascensão aos palácios celestiais, seus praticantes são chamados de יּוֹרְדֵי מֶרְכָּבָה / yordei Merkavah, “os que descem à Carruagem”.
Essa é a “descida” da consciência aos seus estratos mais silenciosos, a passagem da percepção comum para um estado de contemplação visionária, onde o homem deixa de possuir a si mesmo para ser possuído pelo espírito de Profecia.
Mas antes que os céus se abram acima, os receptáculos precisam dilatar abaixo. Por isso, o deserto é o vestíbulo da profecia: Moshê vê Deus no deserto (Shemot 3:1–4), Israel recebe a Torá no deserto (Bamidbar/Números 1:1; Shemot/Êxodo 19), Eliahu escuta a קוֹל דְּמָמָה דַקָּה, “voz fina do silêncio” no deserto (I Melachim/Reis 19:12), e Hashem promete conduzir Israel ao deserto para falar ao seu coração (Hoshea/Oséias 2:16).
A rosa que nasce nesse deserto é a consciência profética, delicada, oculta e luminosa. A Profecia floresce neste lugar, onde o homem se torna um deserto, completamente vazio de ruído e por isso, cheio de possibilidade divina.
A Torá afirma:
נָבִיא אָקִים לָהֶם מִקֶּרֶב אֲחֵיהֶם כָּמוֹךָ,
וְנָתַתִּי דְבָרַי בְּפִיו וְדִבֶּר אֲלֵיהֶם אֵת כָּל־אֲשֶׁר אֲצַוֶּנּוּ
“Farei surgir para eles um profeta dentre seus irmãos, como tu; colocarei Minhas palavras em sua boca, e ele lhes falará tudo aquilo que Eu lhe ordenar.”
(Devarim/Deuteronômio 18:18)
O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:1) codificou na Lei Judaica: “É dos fundamentos da religião saber que Deus concede profecia aos seres humanos...”. E a própria Torá define o profeta como aquele em cuja boca, o Santo, bendito seja Ele, coloca Suas palavras. Sendo assim, a Profecia é, antes de tudo, דבר ה׳ (Devar Hashem, Palavra do Eterno) recebida por um ser humano preparado para manifestar um decreto aqui embaixo. A própria estrutura do versículo revela quatro elementos fundamentais da profecia: “Farei surgir” significa que o Santo, bendito seja, escolhe os Seus profetas; “colocarei Minhas palavras em sua boca” significa os decretos que Deus irá manifestar através do profeta; “ele lhes falará” pois a profecia é uma mensagem para a sociedade e não para o indivíduo; “tudo aquilo que Eu lhe ordenar” é a mensagem per si, absolutamente subordinada à Deus.
Quando falamos de Profecia, estamos nos referindo à incidência da Palavra Divina que desce de Deus ao homem. Esse mesmo princípio já aparece em outro lugar da Torá, quando o Santo, bendito seja, diz a Moshê:
רְאֵה נְתַתִּיךָ אֱלֹהִים לְפַרְעֹה וְאַהֲרֹן אָחִיךָ יִהְיֶה נְבִיאֶ
“Vê: Eu te constituí como autoridade diante de Faraó,
e Aarão, teu irmão, será teu profeta.”
(Shemot/Êxodo 7:1)
Este versículo revela princípios importantes que precisam de esclarecimento. Primeiramente, o que significa “autoridade diante de Faráo”? E ainda, qual o sentido de Aharon ser o profeta de Moshê? Para responder essas perguntas, eu avaliei as Escrituras e percebi expressões que se repetem em várias ocasiões proféticas:
וַיְהִי דְבַר־ה׳ אֵלַי
“E veio a mim a Palavra de Hashem”
כֹּה אָמַר ה׳
“Assim disse Hashem”
נְאֻם ה׳
“oráculo de Hashem”
חֲזוֹן
“visão”
מַרְאֶה
“aparência”
חֲלוֹם
“sonho”
יַד ה׳
“a mão de Hashem”
E todas essas expresões mostram que a Profecia envolve palavra, oráculo, visão, aparência, sonho, imposição espiritual e revelação, dependendo da situação e do nível de recepção do profeta. Portanto, este assunto envolve uma estrutura complexa de recepção divina. Veja o caso de Yirmiyahu (Jeremias), que recebe o chamado do Santo, bendito seja Ele, e a linguagem de Devarim/Deuteronômio 18 reaparece quase literalmente:
וַיִּשְׁלַח ה׳ אֶת־יָדוֹ וַיַּגַּע עַל־פִּי; וַיֹּאמֶר ה׳ אֵלַי: הִנֵּה נָתַתִּי דְבָרַי בְּפִיךָ
“E estendeu Sua mão o Eterno, tocou minha boca, e disse o Eterno:
Eis que coloquei Minhas palavras em tua boca.”
(Yirmiyahu/Jeremias 1:9)
Pelo menos outras duas perguntas se levantam aqui! O que significa “O Eterno estendeu Sua mão”, se Deus não tem corpo e não tem forma corpórea? E qual o sentido de “tocou minha boca”? Perceba que o profeta não é como o filósofo que transmite uma mensagem do seu próprio entendimento. Ao contrário, ele fala como alguém cuja boca sofreu o toque de Deus e está, sobretudo, subordinada à Voz Celestial. Da mesma forma, David HaMelech declara:
וּמִלָּתוֹ עַל־לְשׁוֹנִי
“... e Sua palavra esteve sobre minha língua.”
(II Shemuel/Samuel 23:2)
Aqui aparece outra dimensão: “Sua palavra sobre minha língua”. Mas o que será, de verdade, que isto vem ensinar? Eu pensei muito neste assunto e me parece que é seguro afirmar que os Profetas são introduzidos, em algum grau, ao segredo interno do governo divino da realidade. Se há dúvidas sobre isso, investigue o versículo de Amós:
כִּי לֹא יַעֲשֶׂה אֲדֹנָי יהוה דָּבָר, כִּי אִם־גָּלָה סוֹדוֹ אֶל־עֲבָדָיו הַנְּבִיאִים
“Pois o Senhor Eterno não fará coisa alguma sem revelar Seu segredo
a Seus servos, os profetas.”
(Amos 3:7)
No próprio versículo de Amos 3:7, que define a profecia como revelação do sod divino aos profetas, as iniciais de סודו אל עבדיו הנביאים — "Seu segredo a Seus servos, os profetas" — formam סאה (se'ah, medida) aludindo ao receptáculo/medida da recepção, que é o profeta; e nas letras finais de לא יעשה אדני ה׳ — "Não fará o Senhor Eterno" — aparece אהיה, a cada três letras equidistantes, justamente o Nome da revelação a Moshê na sarça; e, em letras equidistantes, encontra-se ירד, “descer”, evocando a descida contemplativa ao estado de recepção profética.
No entanto, mesmo que aparentemente isso responda alguma coisa para alguns, para mim, que sou somente um pequeno observador, existem aqui mais perguntas do que respostas. O que significa “não fará coisa alguma sem revelar Seu segredo”? E ainda, o que é este segredo? Todas essas perguntas me deixaram perplexo, pois mesmo que eu instintivamente sinta o que responder e como escrever, o tema parece sempre puxar para um domínio oculto e desconhecido que exige meditação e experiência direta, o que dificulta muito minha explanação. Doravante, retomei minha pesquisa e refleti que talvez a palavra “segredo” não seja apenas no sentido de uma informação oculta que seria revelada ao profeta, mas como um conselho interno, ou ainda, uma intimidade na dimensão interior do profeta. Se assim for, a Profecia ocorre em três etapas interdependentes:
Dibur — Quando o Santo, bendito seja Ele, comunica Sua Palavra para o profeta;
Sod — A experiência direta na dimensão interior;
Shlichut — Transmissão da Palavra recebida em linguagem acessivel;
O Rei David, em seus cânticos, amplia esse conceito ainda mais quando diz:
סוֹד יהוה לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם
“O segredo do Eterno é para aqueles que O temem,
e Sua aliança para fazê-los conhecer.”
(Tehilim/Salmos 25:14)
Curiosamente, este versículo também contém a palavra סאה (se'ah, medida) a cada dez letras equidistantes, à partir da primeira letra, aludindo ao receptáculo/medida. Também encontramos a cada sete letras equidistantes, a palavra ירד, “descer”, evocando, mais uma vez, a descida contemplativa ao estado de recepção profética. Mas o versículo levanta ainda outra pergunta: O que significa “e Sua aliança para fazê-los conhecer”? Embora a essência da Profecia seja o Devar Hashem, a forma pela qual a comunicação é recebida pode variar. O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:3) codificou:
“As coisas que são comunicadas ao profeta na visão profética são transmitidas por meio de parábola. Imediatamente, porém, fica gravada em seu coração a interpretação da parábola dentro da própria visão profética, e ele sabe o que ela significa. Assim foi com a escada que nosso pai Yaakov viu, com anjos subindo e descendo por ela; aquilo era uma parábola sobre os reinos e sua dominação. Assim também foram os animais que Yechezkel (Ezequiel) viu, a panela fervente e a vara de amendoeira vistas por Yirmiyahu, o rolo visto por Yechezkel (Ezequiel) e a efá vista por Zecharyah (Zacarias).”
A Torá explicita essa diferença de níveis entre os profetas ao diferenciar Moshê dos demais:
שִׁמְעוּ־נָא דְבָרָי: אִם־יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה׳, בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע, בַּחֲלוֹם אֲדַבֶּר־בּוֹ
“Ouvi agora Minhas palavras: se houver entre vós um profeta do Eterno, em visão Eu Me farei conhecer a ele; em sonho falarei com ele.”
(Bamidbar/Números 12:6)
É como explicou o Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:2): "Os profetas possuem muitos níveis. Assim como na sabedoria existe um sábio maior que seu companheiro, também na profecia existe um profeta maior que outro profeta. E todos eles não veem a visão profética senão em sonho, em visão noturna, ou durante o dia após cair sobre eles um estado de torpor...” E, sobre Moshê, a Torá testemunha:
פֶּה אֶל־פֶּה אֲדַבֶּר־בּוֹ, וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת
“Boca a boca falarei com ele, em visão clara e não por enigmas.”
(ibid., 12:8)
A Torá ensina que a Profecia dos profetas comuns ocorre por mar’eh e chalom — visão mística e sonho — enquanto a profecia de Moshê é peh el peh — boca a boca — sem enigmas. Isso estabelece uma hierarquia muito objetiva. Moshê é o maior dos profetas, pois falava com Deus diretamente. Os demais profetas, no entanto, recebem a mensagem por visão, sonho, imagens e enigmas.
O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:6) codifica: “Enquanto todos os profetas recebiam a profecia em sonho ou visão, Moshê recebia a revelação desperto e de pé... Todos os demais profetas recebiam suas revelações por intermédio de um anjo e, por isso, percebiam a mensagem divina através de parábolas e enigmas. Moshê, porém, não recebia sua profecia por meio de um anjo, como está escrito: “Boca a boca falarei com ele”, “Hashem falava com Moshê face a face” e “Ele contempla a imagem de Hashem”. Sua percepção não era simbólica nem alegórica; ele via a mensagem profética de forma clara e direta, sem enigmas e sem metáforas, conforme testemunha a Torá: “Com visão clara e não por enigmas”. Além disso, todos os profetas eram tomados por temor, espanto e enfraquecimento físico durante a experiência profética. Moshê não era assim. Sobre ele está escrito: “Como um homem fala com seu amigo”, indicando que possuía força intelectual suficiente para compreender a profecia permanecendo consciente, firme e equilibrado. Outra diferença essencial é que os demais profetas não podiam profetizar quando desejavam; precisavam preparar-se e aguardar que a inspiração divina repousasse sobre eles. Moshe, por outro lado, estava constantemente preparado para a profecia. Sempre que desejava consultar o Eterno, o Espírito de Santidade repousava sobre ele, sem necessidade de preparação prévia, razão pela qual pôde dizer: “Esperai, e ouvirei o que Hashem vos ordenará”. Por esse motivo, Hashem lhe disse: “Voltai para vossas tendas; mas tu permanece aqui comigo.” Disso aprendemos que, após o término da profecia, os demais profetas retornavam à vida comum e às necessidades físicas próprias da condição humana, não se separando permanentemente de suas esposas. Moshê, entretanto, permaneceu em um estado contínuo de prontidão profética. Por isso separou-se definitivamente de sua esposa e de tudo aquilo que pudesse afastá-lo dessa condição. Sua mente permaneceu constantemente ligada ao Criador dos mundos, a majestade divina jamais se afastou dele, a pele de seu rosto irradiava luz, e ele alcançou um grau de santidade comparável ao dos anjos.”
O profeta Hoshea disse:
וְדִבַּרְתִּי עַל־הַנְּבִיאִים, וְאָנֹכִי חָזוֹן הִרְבֵּיתִי, וּבְיַד הַנְּבִיאִים אֲדַמֶּה
“Falei aos profetas, multipliquei visões,
e por meio dos profetas, usei imagem representativa.”
(Hoshea 12:11)
A expressão אֲדַמֶּה — adameh, “imagem representativa”, com certeza esconde segredos, mas quais? Na formulação cabalística, a profecia corresponde a Netzach v’Hod de Z”A, enquanto o sonho se relaciona a um nível inferior em Nukva de Z"A (Zohar I, Parashat Vayetzê, 149a). Essa linguagem aprofunda o que a Torá e os Neviim já indicavam, isto é, o profeta recebe por visão, imagem e palavra, mas a origem dessas imagens é superior. A imagem profética é uma imaginação sagrada, ou se preferir, uma forma inferior de uma verdade superior. Os Tikkunei (40b) associam Malchut à faculdade imaginativa mencionando o nosso versículo. Esse adameh é o segredo da manifestação, isto é, o divino, em si, mesmo que não tem forma corpórea, ao encaminhar uma profecia no mundo da recepção, veste Sua Palavra em figuras, Nomes, letras, Sefirot, vozes e visões. Assim, a Cabalá admite a existência da dimensão imaginativa da profecia e ensina que tudo depende da capacidade da alma purificada de receber formas verdadeiras dos planos ocultos que correspondem a raízes espirituais de uma mensagem específica.
Me parece seguro dizer que o profeta recebe uma mensagem da "eternidade das eternidades" que precisa, necessariamente, descer vestida em uma forma perceptível à sua faculdade imaginativa, e isso é aludido na palavra אֲדַמֶּה — adameh formado pelas letras de אָדָם (Adam, Ser Humano) e ה, que aparece duas vezes no Nome Divino. A primeira ה está no pensamento, corresponde ao espiritual de Adam e a segunda está no corpo e na forma corpórea. Este ponto será fundamental para o entendimento do assunto. A verdade superior precisa de uma vestimenta para ser recebida abaixo. O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:1) ensina:
“E quando esse espírito repousa sobre ele, sua alma se mistura ao grau dos anjos chamados Ishim, e ele se transforma em outro homem. Ele compreende, em sua consciência, que já não é como era antes, mas que foi elevado acima do nível dos demais homens sábios.”
O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 2:7) já havia definido essa categoria angelical anteriormente, quando escreveu:
וּמַעֲלַת הָעֲשִׂירִית מַעֲלַת הָאִישִׁים
"A décima categoria é a dos Ishim."
Logo em seguida:
וְהֵם הַמַּלְאָכִים הַמְדַבְּרִים עִם הַנְּבִיאִים וְנִרְאִים לָהֶם בְּמַרְאֵה הַנְּבוּאָה
"São os anjos que falam com os profetas e lhes aparecem na visão profética."
Portanto, quando o Rambam afirma que a alma do profeta se associa ao nível dos Ishim, ele está se referindo à classe angelical mais próxima da percepção humana, aquela ligada à transmissão da profecia. No Moreh Nevuchim (II:32; II:36; II:45), o Rambam aprofunda a estrutura da profecia e esclarece que esse fenômeno espiritual ocorre quando o intelecto humano, aperfeiçoado e unido ao conhecimento verdadeiro, recebe um influxo superior que também alcança a faculdade imaginativa. Por isso, os profetas comuns recebem por imagens, símbolos, sonhos e visões. O ponto central no Rambam é que a imaginação profética é a imaginação purificada pelo intelecto e pela santidade. A mesma faculdade que, em uma pessoa comum produz sonhos confusos, em um profeta purificado pode tornar-se instrumento para a representação de verdades superiores.
Nos Ketuvim, especialmente em Daniel, encontramos descrições de visões que afetam não apenas a mente, como foi abordado até aqui, mas o corpo inteiro. Daniel relata:
וְרָאִיתִי אֲנִי דָנִיֵּאל לְבַדִּי אֶת־הַמַּרְאָה,
וְהָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר הָיוּ עִמִּי לֹא רָאוּ אֶת־הַמַּרְאָה, אֲבָל חֲרָדָה גְדֹלָה נָפְלָה עֲלֵיהֶם
“Eu, Daniel, vi sozinho a visão; e os homens que estavam comigo não viram a visão, mas grande tremor caiu sobre eles.”
(Daniel 10:7)
Daniel vê, mas os outros não veem. Mesmo assim, eles sentem o impacto e seus corpos tremem. Isso mostra que a percepção profética é uma percepção espiritual que pode repercutir no corpo e até mesmo fora do corpo, no ambiente ao redor, mesmo quando não é acessível a todos os presentes. Daniel ouve do anjo:
מִן־הַיּוֹם הָרִאשׁוֹן אֲשֶׁר נָתַתָּ אֶת־לִבְּךָ לְהָבִין וּלְהִתְעַנּוֹת לִפְנֵי אֱלֹהֶיךָ, נִשְׁמְעוּ דְבָרֶיךָ
“Desde o primeiro dia em que colocaste teu coração para compreender e te afligir diante de teu Deus, tuas palavras foram ouvidas.”
(ibid., 10:12)
Há aqui uma ligação entre a preparação da mente, a intenção do coração, a busca de entendimento, a submissão diante de Deus e a recepção espiritual. A visão de Daniel vem no contexto de uma disposição interior profunda. Em outras palavras, Daniel recebeu treinamento para receber a profecia em seus estados mais elevados. E ainda, a literatura rabínica reconhece que mesmo o sonho pode ser um eco menor da profecia. A Guemará diz (Berachot 57b):
חֲלוֹם — אֶחָד מִשִּׁשִּׁים לַנְּבוּאָה
“O sonho é um sessenta avos da profecia.”
E o Midrash (Bereshit Rabbah 17:5) afirma:
נוֹבְלֶת נְבוּאָה — חֲלוֹם
“O resíduo da profecia é o sonho.”
Isso significa que a estrutura do sonho possui alguma semelhança formal com a profecia, já que ambas podem envolver imagem, símbolo, comunicação indireta e percepção que não passa pelo raciocínio discursivo comum. No entanto, isso não significa que todos os sonhos são proféticos. A profecia verdadeira sempre exige clareza, origem divina e recipiente santificado. A Guemará (Nedarim 38a) estabelece um princípio clássico:
אֵין הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַשְׁרֶה שְׁכִינָתוֹ אֶלָּא עַל גִּבּוֹר וְעָשִׁיר וְחָכָם וְעָנָיו
“O Santo, bendito seja Ele, não faz repousar Sua Shechiná senão sobre alguém forte, rico, sábio e humilde.”
E aqui encontramos outro conceito que precisa de explicação: Hashra’at haShechiná — o repouso da Divina Presença. Já as quatro qualidades mencionadas podem ser entendidas em vários níveis:
Gibor — forte: aquele que governa seus impulsos, mas também aquele que tem força física para conseguir receber a profecia;
Ashir — rico: aquele que possui amplitude, independência e não está escravizado pela carência.
Chacham — sábio: aquele cuja mente é capaz de receber verdade elevada.
Anav — humilde: aquele cujo ego não bloqueia a passagem da Palavra Divina.
O Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:1) codificou: “Quando uma pessoa reúne todas essas qualidades, é íntegra em seu corpo, entra no Pardês e se ocupa desses assuntos grandes e elevados; quando possui entendimento correto para compreender e alcançar, santifica-se progressivamente, separa-se dos caminhos da maioria das pessoas que caminham nas trevas do tempo, estimula-se continuamente e educa sua alma para não ter pensamento algum em coisas vãs, nem nas vaidades e artifícios do tempo, mas mantém sua consciência sempre livre para o alto, ligada debaixo do Trono, buscando compreender aquelas formas santas e puras; quando contempla a sabedoria do Santo, bendito seja Ele, desde a Forma Primeira até o centro da terra, e por meio delas conhece Sua grandeza, imediatamente o espírito de santidade repousa sobre ele.” A humildade é indispensável porque a profecia exige transparência. O profeta não deve substituir a Voz do Santo, bendito seja Ele, por sua subjetividade. Quanto mais o ego domina, mais o recipiente deforma a luz recebida. A sabedoria também é indispensável, pois a mente precisa ser capaz de interpretar a verdade elevada da revelação. A riqueza é indispensável por causa da independência do profeta e do juízo reto. A força é indispensável para controlar os impulsos e conseguir absorver com saúde a Voz Divina.
Além disso, os nossos rabinos, de abençoada memória, ensinaram:
אֵין שְׁכִינָה שׁוֹרָה... אֶלָּא מִתּוֹךְ דְּבַר שִׂמְחָה שֶׁל מִצְוָה
“A Shechiná não repousa... senão a partir da alegria de uma mitzvá.”
(Talmud, Shabat 30b; Pessachim 117a)
E o Rambam (Hilchot Yesodei HaTorah 7:4-5) codificou: “Os profetas não profetizam sempre que desejam. Antes, concentram sua consciência, sentam-se alegres e de bom coração, e se isolam. Pois a profecia não repousa em meio à tristeza nem em meio à preguiça, mas somente em meio à alegria. Por isso, os filhos dos profetas tinham diante deles harpa, tambor, flauta e lira, e buscavam a profecia. É sobre isso que foi dito: “E eles estavam profetizando” (I Shmuel/Samuel 10:5), isto é, caminhavam pelo caminho da profecia até que profetizassem, assim como se diz: “fulano está crescendo”, isto é, está no processo de se tornar grande. Aqueles que buscam profetizar são chamados filhos dos profetas. E embora concentrem sua consciência, é possível que a Shechiná repouse sobre eles, e é possível que não repouse.” Esse princípio é associado a Elisha, aluno de Eliahu HaNavi:
וְעַתָּה קְחוּ־לִי מְנַגֵּן; וְהָיָה כְּנַגֵּן הַמְנַגֵּן וַתְּהִי עָלָיו יַד־ה׳
“Agora tragam-me um músico; e quando o músico tocou, a mão de Hashem veio sobre ele.”
(II Melachim/Reis 3:15)
Até que a música tocasse e seu coração se acalmasse, o “beijo de Deus” não veio sobre sua boca e o espírito da profecia não pairou. Vejam só que bonito! A música, nesse contexto, harmoniza a alma e remove a tristeza e as preocupações mundanas. Até que desperte a alegria do Profeta para cumprir um preceito, e ele torna-se um recipiente para a mão de Hashem. Sob essa ótica, a Profecia requer alegria e paz, mesmo para um homem experiente e sábio como Elisha, que foi aluno de Eliahu HaNavi.
A Guemará ensina que muitos profetas se levantaram para Israel, mas somente as profecias necessárias às gerações foram registradas (Talmud, Meguilah 14a). No entanto, a Profecia foi uma dimensão real da vida nacional de Israel, parte do cotidiano da nação. Muitos eram os estudiosos alunos dos profetas, mesmo que não foram mencionados diretamente no Tanach. No entanto, o Tanach conserva apenas aquilo que possui necessidade eterna, isto é, profecias que foram transmitidas para todas as gerações até a vinda do Ungido de Israel, muito em breve, em nossos dias. Desde a destruição do Templo, houve uma mudança na recepção dos estados proféticos. A Guemará ensina:
מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, נִיטְּלָה נְבוּאָה מִן הַנְּבִיאִים וְנִיתְּנָה לַחֲכָמִים
“Desde o dia em que o Beit HaMikdash foi destruído, a profecia foi retirada dos Profetas e dada aos Sábios.”
(Talmud, Baba Batra 12a)
Essa afirmação significa que a Sabedoria da Torá se torna o canal principal de discernimento em Israel na Diáspora. O poder da imaginação profético é a capacidade da alma purificada de receber imagens verdadeiras correspondentes a raízes espirituais reais. A literatura de Heichalot Rabbati preserva uma tradição visionária ligada à contemplação dos palácios celestiais, dos anjos, dos cânticos superiores e do Trono Divino. Essa literatura está ligada ao horizonte de Yechezkel 1, Maassê Merkavá, e à experiência de ascensão espiritual. Essa tradição pertence ao mundo da Merkavá e da experiência visionária pós-bíblica. Contudo, ela é a óbvia continuação do mapa judaico dos estados elevados de percepção que agora estava no campo dos sábios da Torá. Em Merkavá se relata sobre a audição de vozes superiores, a visão de palácios, o temor e tremor diante das hostes celestiais, a existência de uma linguagem angélica, as diferentes formas de ascensão da consciência, a contemplação da Merkavá e a necessidade indispensável da transformação do sujeito diante da Majestade Celestial. A Profecia bíblica e os escritos da Merkavá compartilham um princípio: a consciência humana pode ser elevada para perceber dimensões normalmente ocultas da realidade. A diferença está no grau, na autoridade, na origem da missão e no lugar dentro da tradição.
Rabi Avraham Abulafia representa uma das formulações mais explícitas da chamada Cabalá Profética. Para Abulafia, o caminho profético envolve a purificação da alma, a concentração da mente, o uso das letras hebraicas, Nomes Divinos, o ritmo da respiração, a vocalização e a contemplação.
Suas obras — como Chayei HaOlam HaBa, Or HaSekhel, Sefer HaCheshek, Imrei Shefer, Gan Naul e VeZot LiYehuda — desenvolvem a ideia de que as letras são estruturas espirituais da criação. Trabalhar com as letras, em santidade e preparação, é parte do trabalho de treinamento da consciência humana para com a linguagem pela qual Hashem cria e revela sua criação. Essa abordagem se apoia no princípio:
בִּשְׁלֹשִׁים וּשְׁתַּיִם נְתִיבוֹת פְּלִיאוֹת חָכְמָה...
“Com trinta e dois caminhos maravilhosos de sabedoria...”
(Sefer Yetzirah 1:1)
A profecia, em Abulafia, envolve preparação ativa do intelecto e da imaginação por meio da linguagem sagrada. A combinação das letras — tzerufei otiot — desestrutura a consciência comum, rompe a rigidez das associações habituais e permite que a mente seja elevada ao influxo divino, de onde pode-se captar a Voz Celestial através de parábolas, como faziam os Profetas. Para Abulafia, a Profecia é a plenitude da união entre intelecto purificado, linguagem divina e influxo espiritual revelados pela percepção do ser humano. Portanto, o profeta é aquele cuja consciência se torna transparente aos decretos de Deus.
Neste mesmo caminho, Rabi Hayim Vital, em Shaarei Kedushá, ensina que para Ruach HaKodesh e para os graus superiores de percepção espiritual é necessário trabalhar na purificação integral da alma. A obra trata dos obstáculos à profecia, das condições para alcançá-la, dos graus de Ruach HaKodesh e dos modos pelos quais a alma pode se tornar recipiente da revelação (Shaarei Kedushá, Introdução; III–IV).
Para alcançar a Profecia, todos os níveis da alma precisam estar limpos e puros como vidro claro (Shaarei Kedushá III:3). O vidro é uma metáfora perfeita, pois não produz luz e permite que a luz passe. Da mesma forma, o profeta não fabrica a revelação por meio de projeções, como é o caso dos meditativos; ele remove as opacidades e Deus revela pra ele o que está por trás das cortinas.
Rabi Hayim Vital explica que a preparação envolve algumas etapas. Se uma pessoa deseja alcançar algum grau de revelação profética, ele precisa começar trabalhando pelos seus traços de caráter negativos, e ampliar suas boas qualidades, exercitando a prática do bem e a anulação da vontade própria para um propósito maior. O candidato precisa afastar-se permanentemente dos pecados e adquirir pureza do pensamento. Além disso, não há profecia para um homem com fadiga, como aqueles que estão acima do peso, tampouco para um homem fraco. É preciso exercitar-se e tornar-se forte, pois exige-se santidade do corpo para alcançar qualquer nível de revelação. É indispensável o estudo da Torá, guardar as mitzvot e treinar a kavanah. É preciso separar-se das forças de impureza em todos os graus e refinar a linguagem e o comportamento, guardando os olhos, ouvidos e boca. Após adquirir todos estes níveis, o candidato se prepara para receber o Rúach HaKodesh.
Rabi Hayim Vital também afirma que certos graus podem ser alcançados pela santidade da pessoa e por seu envolvimento com a Torá, e que há certos atos e meditações que pertencem apenas a alguém já digno e preparado (Shaarei Kedushá IV:1).
A questão não é apenas “como receber”, mas “quem se tornou apto a receber”. O recipiente, sob essa ótica, é a própria pessoa transformada e habilitada para a Profecia. O Ramchal, em uma das obras judaicas mais importantes para a introdução no serviço à Deus, Derech Hashem, explica que o Santo, bendito seja Ele, implantou na natureza humana a possibilidade de alcançar conhecimentos que ultrapassam o funcionamento ordinário da mente, quando a alma é elevada e conectada às raízes superiores (Ramchal, Derech Hashem III, “BeRuach HaKodesh veHaNevuah”).
Para o Ramchal, Ruach HaKodesh permite à pessoa conhecer realidades que não alcançaria por meios naturais. A Nevuá, porém, é o grau mais alto, mais claro, mais intenso e mais direto. Ela envolve uma conexão superior, na qual o profeta é tomado por uma comunicação divina em grau de revelação. Estes são os níveis de inspiração e revelação profética apresentados na ordem do Ramchal:
Chochmah natural: conhecimento adquirido pela razão.
Siata diShmaya: assistência divina no entendimento.
Ruach HaKodesh: influxo superior que revela ou ilumina.
Nevuá: comunicação divina clara, estruturada e missionária.
Nevuat Moshê: grau único, direto e absoluto.
Essa hierarquia é essencial para não confundir qualquer inspiração que venha à pessoa em seus estudos com a profecia verdadeira. A profecia é necessária para que a vontade divina seja conhecida diretamente pelo receptor. Sem profecia, o homem teria apenas razão, tradição parcial e busca natural. Mas através da Profecia, Hashem encurta a distância entre céu e terra e comunica Sua vontade através de uma experiência sem intermediários humanos, como professores e mestres, mas, através de imagens, sons e sentimentos, que podem comunicar com clareza Sua vontade.



Só agradeço por esse ensinamento