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22 Dias Entre os Apertos

O termo בֵּין הַמְּצָרִים (Bein HaMetzarim, Entre os Apertos) foi inspirado na Tanach (Eikhá/Lamentações 1:3), sobre o dito: כָּל־רֹדְפֶיהָ הִשִּׂיגוּהָ בֵּין הַמְּצָרִים — “todos os seus perseguidores a alcançaram entre os apertos”. A exegese tradicional dos nossos rabinos (Midrash Eikhá Rabbah 1:29) nota que o versículo alude a um corredor temporal, não apenas físico, em que Israel se vê comprimido entre forças de rigor extremo, comparado aos sofrimentos do Egito aludidos na palavra מְצָרִים (metzarim, apertos), cujas letras são as mesmas de מִצְרַיִם (Mitzráim, Egito).

O período vai de 17 de Tamuz — dia em que as muralhas de Jerusalém foram violadas — até 9 de Av, data em que ambos os Templos foram destruídos. A terminologia traduz a sensação de opressão histórica e espiritual que marca esse período entristecedor, no qual a dor nacional é revivida liturgicamente.

De acordo com a explicação de Rashi sobre este versículo, os vinte e dois dias de luto exigem maior vigilância, pois as defesas espirituais de Israel encontravam-se vulneráveis nesta época; por isso, “todos os seus perseguidores a alcançaram”. Entretanto, os mestres de Israel compreenderam que o sentido do versículo transcende sua aparente simplicidade. O Midrash identifica estes dias como uma janela histórica recorrente na qual diversos infortúnios nacionais convergiram. Não se trata apenas da lembrança da destruição do Beit HaMikdash (Templo Sagrado), mas de uma concentração de eventos que revelam uma retração da proteção manifesta da Providência Divina na história de Israel. Por essa razão, os Sábios estabeleceram práticas graduais de luto que se intensificam à medida que se aproxima Tish‘ah BeAv (Nove de Av).

O Maharal de Praga (Nétzach Yisrael, caps. 8–26) explica que toda destruição ocorre quando uma forma perde o princípio que lhe conferia unidade.

Assim, a destruição de Jerusalém e do Templo deve ser entendida como uma ruptura da ordem espiritual que permitia a manifestação da Shechiná (Presença Divina) no mundo. Bein HaMetzarim representa precisamente esse intervalo entre a integridade de Israel e sua fragmentação, entre a revelação de Deus e o ocultamento. 

   Os mestres da Cabalá ampliaram ainda mais essa compreensão. O Arizal, Rabi Yitzchak Luria, ensina que estes dias correspondem a uma intensificação dos דִּינִים (dinim, juízos rigorosos), razão pela qual diversos costumes de precaução e restrição foram incorporados à tradição, já que por estes meios pode-se transformar os juízos.

Em Sha‘ar HaKavanot, o período é descrito como um momento em que os canais da benevolência divina encontram-se parcialmente contraídos, exigindo do indivíduo maior vigilância espiritual, introspecção e retorno para sua essência.

  Sob essa perspectiva, o nome Bein HaMetzarim adquire um significado mais profundo. Os “apertos” representam toda condição de estreitamento da consciência espiritual. Tal como Mitzráim (Egito) simboliza o lugar da limitação, da servidão e da incapacidade de expressar plenamente a centelha divina, também Bein HaMetzarim representa uma experiência coletiva de constrição da alma nacional de Israel. O Zohar (246a–249b) associa a destruição do Templo ao afastamento aparente da Shechiná e ao exílio espiritual da comunidade de Israel.

Todavia, paradoxalmente, os mesmos textos enfatizam que a Redenção nasce precisamente do ponto mais profundo da ocultação. Assim como o nascimento ocorre através das dores do parto, também a Redenção emerge do interior de uma crise. 

   Diante do fato, diversos mestres observam que o Ungido, filho de David, está intimamente relacionado ao 9 de Av, já que a destruição do Templo contém em si o potencial da mais elevada ascensão. Dessa forma, Bein HaMetzarim é um período de consciência histórica, exame espiritual e preparação para a reconstrução do por vir. Ao recordar a queda de Jerusalém, o judeu e o justo entre as nações procura identificar os seus próprios metzarim, para que, por meio do serviço desta época, possa transmutar o chumbo dos sofrimentos no ouro do júbilo pleno.

   A palavra מְּצָרִים (metzarim, apertos) refere-se as gargantas rochosas de Israel, e certamente encontra sua raiz no primeiro exílio, na terra dos escravos, em מִצְרַיִם (Mitzraim, Egito). O Metzudat David escreve que Israel, exausto da fuga, não podia resistir quando atravessava “a garganta” da grande estrada imperial; nesse ponto os inimigos “a alcançaram”. Dom Abarbanel, por outro lado, explica que a única força que pode se opor contra Israel são seus próprios pecados. Quando os influxos do Alto não descem ao mundo por causa dos pecados de Israel, perde-se a proteção providencial. Segundo essa explicação, é o próprio pecado quem persegue a pessoa “entre os apertos”, nas gargantas rochosas. Daqui aprendemos a importância da Teshuvá para este período tão sensível.

A Mishná (Ta’anit 4:6) elenca cinco desgraças do 17 de Tamuz: (1) a quebra das primeiras tábuas; (2) a suspensão do sacrifício contínuo; (3) a brecha babilônica nas muralhas (586 AEC); (4) a queima do pergaminho da Torá por Apóstomos; (5) a colocação de um ídolo no Santuário do Templo. O Rambam (Mishnê Torah, Hilchot Ta’aniyot 5:2) observa que tais flagelos representam a ruptura de cinco elos essenciais: revelação, culto diário, segurança de Jerusalém, santidade das Escrituras e pureza do recinto sagrado — pilares cuja erosão preparou a catástrofe do 9 de Av, que culminou com a destruição do Templo de Jerusalém. O Talmud (Ta’anit 26b) lista outras cinco tragédias em 9 de Av: o decreto do deserto após o relato dos príncipes (Bamidbar/Números 14:1-45); a destruição do Primeiro Templo (586 AEC); a do Segundo (70 EC); a queda de Betar (135 EC); e o arado pagão que rasgou a Cidade Santa. Cada evento reduziu sucessivamente a presença da Shechiná no mundo. A historiografia judaica ampliou a lista: a Primeira Cruzada (1096), as expulsões da Inglaterra (1290) e da Espanha (1492), a assinatura do e­dito de Napoleão que restringiu a vida judaica (1808), o início da Primeira Guerra Mundial (1914) e a liquidação do Gueto de Varsóvia (1942). Tais correlações não pretendem mera coincidência, mas evidenciam o que Maharal de Praga chama de “convergência de julgamentos na mesma órbita astrológica” — uma zona temporal onde julgamentos se reativam. 

O Zôhar (III 245a-b) compara o exílio a um embrião “apertado” no útero; eles dissseram que apenas através do poder da oração que se dilatam os canais que permitem este bebê nascer.

Neste mesmo caminho, o Arizal (Sha‘ar HaKavanot, Inyan Bein HaMetzarim), apresenta o período como um tempo de הִתְעוֹרְרוּת הַדִּינִים (hit‘orerut ha’dinim, despertar dos juízos rigorosos). Por isso, ele escreve que uma alma sensível, um בַּעַל נֶפֶשׁ (ba‘al nefesh, pessoa de alma refinada), deve sentar-se em luto depois de חֲצוֹת הַיּוֹם (chatzot hayom, meio-dia) durante esses dias, chorando pela destruição do Beit HaMikdash (Templo Sagrado). O motivo é profundo! A queima do Heichal (Santuário) começou depois do meio-dia, e esse horário passou a carregar uma memória espiritual de rigor e ocultação. Logo, a tristeza sagrada é para permitir הַמְתָּקַת הַדִּינִים (hamtakat ha’dinim, o adoçamento dos juízos). 

Por isso, entre as intenções deste período, a própria palavra צָרָה (tzará, angústia) pode ser elevada e transformada em רְצֵה (retzê, aceitação), indicando que aquilo que se apresenta como aperto pode ser reconduzido ao campo daquilo que o Santo, bendito seja Ele, רָצָה (ratzá, desejou), isto é, a reconciliação e a reconstrução, transformando os elementos brutos em extratos refinados de sabedoria.  

A Chassidut amplia ainda mais essa leitura. O Baal HaTanya, na Igueret HaKodesh 11, ensina que existe uma bondade tão elevada que, enquanto não desce ao mundo revelado, pode ser percebida como dor, perda e ocultação. Esta é uma chave essencial para compreender Bein HaMetzarim. Nós não romantizamos o sofrimento. Não transformamos tragédia em poesia vazia.  Mas afirmamos que, mesmo no interior da הֶסְתֵּר פָּנִים (hester panim, ocultação da Face Divina), existe uma raiz superior de Bem Perfeito que ainda não se revelou plenamente. Por isso, o versículo diz: מִן־הַמֵּצַר קָרָאתִי יָּהּ, עָנָנִי בַמֶּרְחָב יָהּ - “do estreito invoquei Yah; Yah respondeu-me na amplidão”. O מֵצַר (metzar, estreito) é o lugar de onde sobe os louvores de baixo para cima; e quando é verdadeiro, atrai מֶרְחָב (merchav, amplidão).

Assim, Bein HaMetzarim significa “no ponto exato em que o aperto se expande”. Outra iluminação: Avodat Yisrael, de Rabi Yisrael de Kozhnitz, oferece uma das leituras mais luminosas deste período.

Sobre o versículo כָּל־רֹדְפֶיהָ הִשִּׂיגוּהָ בֵּין הַמְּצָרִים (kol rodfeha hissiguha bein hametzarim, “todos os seus perseguidores a alcançaram entre os apertos”), ele lê: כָּל רוֹדְפֵ־יָהּ (kol rodfê-Yah, todos os que buscam Yah).

Ou seja, se por um lado os perseguidores de Israel alcançam os desligados; em compensação, aqueles que perseguem o Nome e buscam refúgio Nele, podem alcançá-Lo de modo especial em Bein HaMetzarim. O Rei, por assim dizer, está nos portões do palácio, como foi dito (Shir HaShirim/Cântico dos Cânticos 6:2): דּוֹדִי יָרַד לְגַנּוֹ לַעֲרוּגוֹת הַבֹּשֶׂם - “Meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de especiarias.”. E quando o Rei está fora do palácio, até aqueles que normalmente não conseguiriam atravessar os portões podem aproximar-se Dele.

À luz do que foi dito, pode-se reler o versículo: כָּל־רֹדְפֶיהָ הִשִּׂיגוּהָ בֵּין הַמְּצָרִים - “todos os seus perseguidores a alcançaram entre os apertos”, isto é, alcançaram o בַּעַל מְצָרֵי הָאֲנִי (Ba‘al Metzarei Ha’Ani, Senhor dos Apertos do Eu), o perverso e arrogante veneno do Mal, que seu poder seja anulado. E quanto maior é sua יֵשׁוּת (yeshut, egoidade), maior é o seu sofrimento. Mas os רֹדְפֶ-יהָ (rodêf-Yah, os que perseguem o Eterno) não admitem mancha alguma em suas vestimentas e estão constantemente retornando para Deus. Estes são os que alcançam Ele. Eis que então, as palavras e atos de Teshuvá talham as Segundas Tábuas e Israel se torna, novamente, parceiro ativo da revelação. Outra explicação, das alusões mais impressionantes que eu encontrei entre מֵצַר (metzar, estreito) e מֶרְחָב (merchav, amplidão), surge quando analisamos o מִלּוּי הַנֶּעְלָם (milui ha-ne‘elam, preenchimento oculto) de ambas as palavras.

Em מֵצַר (metzar, aperto), as letras ocultas somam 364. Esse número é conhecido pelos Sábios porque corresponde à guematria de הַשָּׂטָן (HaSatan, o Acusador).

O significado profundo dessa associação é que o מֵצַר (metzar, estreito) representa precisamente o estado em que a consciência se encontra comprimida pelas forças de acusação, julgamento, limitação e separação. O homem preso no estreito vê apenas as muralhas ao redor.

   A Torá desce não apenas sobre o mundo, mas dentro do mundo. Portanto, nem todo aperto é estreito, e nem toda dor é sofrimento. Se ocupe com תְּשׁוּבָה (teshuvá, retorno), תְּפִלָּה (tefilá, oração), צְדָקָה (tzedaká, caridade) e estudo de Torá, que o מֵצַר (metzar, estreito) tornar-se-á o lugar onde uma iluminação adicional será talhada. Nas palavras dos nossos rabinos, de abençoada memória (Talmud, Meguilá 6b): יָגַעְתִּי וּמָצָאתִי תַּאֲמִין - “se alguém diz: esforcei-me e encontrei, acredita”.

 
 
 

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