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A infame farsa "Judaico-Cristã"

A Bíblia Hebraica, fonte da tradição judaica, chama-se originalmente Tanach — תנ״ך — acrônimo de Torá, Nevi’im e Ketuvim: Os cinco livros de Moisés, Profetas e Escritos. Ela é a Escritura Sagrada de Israel, transmitida em hebraico, com trechos em aramaico, e preservada por meio da tradição textual, da leitura pública, das entonações melódicas, dos comentários, das leis e da interpretação rabínica há mais de dois mil anos. O cânon judaico possui sua própria ordem, sua própria divisão e sua própria lógica interna. Todos esses elementos fazem parte daquilo que torna o povo judeu uma nação única, com crença, linguagem, terra e costumes muito particulares. Apesar disso, ao longo da história, sempre houve grupos, seitas e até filosofias inteiras que buscaram atrair os filhos de Israel para a assimilação em suas culturas. Isso aparece, por exemplo, no Livro de Esther, em Ester 3:8:


“E Haman disse ao rei Achashverosh: Há um certo povo, espalhado e separado entre os povos, em todas as províncias do teu reino; suas leis são diferentes das de todos os povos, e eles não cumprem as leis do rei; por isso, não convém ao rei deixá-los permanecer.”

Apesar das inúmeras tentativas de diluir a cultura própria dos israelitas, nenhum grupo obteve tanto alcance quanto o Cristianismo. Essa religião reorganizou as Escrituras judaicas segundo sua própria lógica teológica, colocando-as sob a categoria de “Antigo Testamento” e transformando-as na primeira parte de uma Bíblia cristã bipartida, seguida pelo “Novo Testamento”.


Talvez este seja um ponto apropriado para começarmos nossa conversa.


A reorganização das Escrituras por não judeus não é neutra, nem foi feita apenas em nome de um suposto “bem universal”. Embora tenha se inspirado em certos princípios universais, ela não demonstrou, ao longo desses dois mil anos, qualquer intenção de realizar a Obra Divina à partir da verdade pura da Torá de Israel. A poeira da história deixou marcas profundas: muitas foram as vezes que os interesses por trás dessa apropriação foram teológicos, políticos e até vaidosos. Quando o Tanach é chamado de “Antigo Testamento”, ele passa a ser lido como uma promessa incompleta, cuja chave estaria fora do Judaísmo, isto é, no "Novo Testamento". Percebe como isso é problemático e, antes de tudo, como pode estar entre as raízes do antissemitismo no mundo ocidental?


Textos que, dentro da Bíblia Hebraica, falam de justos entre as nações — como Noach (Noé), Malki-Tzedek (Melquisedeque), Avraham (Abraão), Yitzchak (Isaac), Yaakov (Jacó) e Yosef (José) — ou que tratam diretamente dos filhos de Israel e do povo judeu como um todo, são frequentemente relidos pela Igreja como profecias sobre Jesus, sobre a própria Igreja, sobre uma salvação espiritual universal e, em alguns casos, até sobre um possível apocalipse. Mas, cá entre nós: é justo tomar de assalto uma tradição sagrada e milenar como o Judaísmo e ressignificá-la conforme o próprio entendimento? No fim das contas, Jesus de Nazaré, colocado como fiador dessa leitura, faz jus a todo esse esforço? Essas não são perguntas fáceis de responder; no entanto, abrem caminhos importantes para a conscientização da fé, termo este que acabei de cunhar dado às circunstâncias.


Historicamente, o Cristianismo surgiu dentro do mundo judaico da época do Segundo Templo. Em outras palavras, nasceu muitos séculos depois da formação do monoteísmo abraâmico tradicional, cultivado no seio de Israel até os dias atuais. No século I da era comum, havia diversos grupos judaicos: fariseus, saduceus, essênios, zelotas, círculos apocalípticos, círculos sacerdotais, discípulos de mestres carismáticos e movimentos messiânicos. O grupo de Jesus nasceu nesse ambiente, em uma Judeia sob domínio romano, pouco antes da destruição do Segundo Templo, no ano 70 da era comum.


E por que havia, naquele período, esse espírito de disputa e rebelião, mas também de angústia e paixão pela possibilidade da redenção? Porque Israel estava sob domínio do Império Romano, e essa dominação impunha pressões políticas, econômicas, sociais e religiosas muito profundas. A população da Judeia já vivia em um estado de tensão extrema todos os dias.


No início, os seguidores de Jesus eram judeus. Eles frequentavam o Templo, conheciam a linguagem bíblica, esperavam a redenção de Israel e interpretavam Jesus como uma figura messiânica importante. Porém, após a morte de Jesus, a destruição do Templo, a expansão missionária entre os gentios e o crescimento de comunidades não judaicas, o movimento passou por uma transformação radical. A fé em Jesus deixou de ser apenas uma expectativa messiânica judaica minoritária e se tornou o centro de uma nova religião universal.


Esse processo é conhecido pelos historiadores como a “separação dos caminhos” entre Judaísmo e Cristianismo. Ele não ocorreu em um único momento, nem em um único concílio. Foi gradual, marcado por disputa de autoridade, divergência de interpretação bíblica, entrada de gentios, rejeição da tradição rabínica, destruição do Templo, reorganização do Judaísmo em torno dos sábios e institucionalização progressiva das igrejas cristãs.


Grupos como os nazarenos e os ebionitas preservaram, por algum tempo, formas de cristianismo judaico ou judaizante. Eles reconheciam Jesus de alguma maneira, mas mantinham práticas judaicas mais próximas da Torá. Ainda assim, esses grupos não se tornaram o Judaísmo normativo e foram marginalizados ou desapareceram completamente da história. Isso significa que não há registro histórico contínuo e verificável do desenvolvimento de uma tradição judaico-nazarena preservada de maneira estável desde os primeiros seguidores de Jesus até os dias atuais. O Cristianismo que permaneceu na história não foi o cristianismo judaico-nazareno, mas o Cristianismo gentílico, grego, romano e eclesiástico.


Essa separação dos caminhos é fundamental para entender por que seitas contemporâneas de judaísmo nazareno ou messiânico não encontram uma continuidade histórica e teológica sólida com o Judaísmo antigo. A teologia cristã — isto é, sua definição de Deus, Messias, Mundo Vindouro, céu, inferno, ressurreição e outros temas fundamentais — seja ela católica, ortodoxa, evangélica ou messiânica, encontra sua matriz histórica na Igreja antiga, especialmente na tradição que se consolidou como católica, com os doutores da Igreja, responsáveis por codificar esses princípios cristãos e estabelecê-los como parâmetro. Antes de avançar na linha temporal cristã, vale perguntar:


Mas então, quem foram os responsáveis pela preservação do monoteísmo bíblico original?

É importante saber que, após a destruição do Segundo Templo, não foi o Cristianismo que preservou a continuidade da Bíblia Hebraica. Quem preservou a Torá como tradição viva foi o Judaísmo Rabínico, organizado a partir das casas de estudo do exílio ao longo desses dois milênios, para guardar, transmitir e interpretar a herança de Israel até os dias de hoje.


Muito diferente das seitas judaicas da época do Segundo Templo, o Judaísmo Rabínico não é uma invenção tardia desligada da Bíblia Hebraica. Ao contrário: os antigos sábios da tradição dão continuidade histórica à tradição farisaica e sapiencial, que afirma a existência de uma Torá Escrita e de uma Torá Oral. A Mishná, o Talmud, os Midrashim, a Massorá e os comentários rabínicos preservaram não apenas leis, mas também a maneira judaica de ler, pronunciar, cantar, interpretar e viver o Tanach.


A reconhecida Encyclopaedia Britannica observa que a tradição oral dos fariseus tornou-se um princípio básico, e que a Mishná, por volta do ano 200 da era comum, incorporou a lei judaica farisaico-rabínica essencial para cumprir os preceitos estabelecidos na Torá Escrita. A Mishná começa o Tratado de Avot com a seguinte declaração:


משה קיבל תורה מסיני ומסרה ליהושע

“Moisés recebeu a Torá do Sinai e a transmitiu a Josué.”


Essa frase expressa a consciência judaica de que a Torá faz parte de uma transmissão necessária entre pai e filho, mestre e discípulo. Mas por que ela precisa, necessariamente, de transmissão? Não é suficiente nossa leitura e percepção direta das Escrituras? A resposta é simples:


Se não há tradição, cada pessoa pode pretender liderar por sua própria interpretação e capacidade de convencimento, até que a verdade acabe fragmentada em inúmeras correntes distintas, tornando quase impossível ao buscador sincero encontrar a fonte primária do assunto em questão.

Mesmo aquilo que muitos leitores modernos chamam de “Bíblia Hebraica” só é plenamente acessível por causa da tradição rabínica. Foram os sábios de Israel, dentro do universo judaico rabínico medieval, que preservaram cuidadosamente o texto consonantal, acrescentaram sinais vocálicos, acentos, notas textuais e sistemas de leitura capazes de garantir a pronúncia correta das palavras.


Eles foram, por assim dizer, os “professores primários” do mundo ocidental no assunto do monoteísmo bíblico. Até para entender o que há de mais simples nas Escrituras, como o versículo que diz “com o suor do teu rosto comerás o pão”, a interpretação original encontra sua fonte primária no Judaísmo Rabínico, e não no Cristianismo tradicional, tampouco em suas ramificações mais recentes.


O texto hebraico impresso tradicional contém detalhes que são produto direto dessa transmissão. Portanto, há aqui uma ironia histórica: o Cristianismo reivindica interpretar a Bíblia Hebraica contra os rabinos, alegando que eles seriam impostores ou hereges por se recusarem a aceitar Jesus como o Messias verdadeiro. No entanto, esse mesmo Cristianismo recorre, direta ou indiretamente, à tradição judaica para compreender, traduzir e explicar o texto original, cujas formulações só podem ser compreendidas plenamente dentro do mundo judaico-israelita da Antiguidade.


Veja só: sem os sábios responsáveis por transmitir e registrar essa tradição, e sem a formação do Judaísmo Rabínico, não haveria leitura hebraica confiável, vocalização das letras, cantilação, gramática tradicional, transmissão textual, lei prática nem contexto judaico consistente. Confirma-se, sobretudo, apesar das perseguições, que a tradição rabínica é a verdadeira guardiã dos preceitos bíblicos conforme observados pelo povo de Israel. Sendo assim, consultem o próprio coração com a pergunta:


Se os sábios de Israel são os guardiões da Torá, qual é a base de fé deles? Em que se apoia o Judaísmo Rabínico? A resposta é simples: Yichud Hashem, a unidade absoluta de Deus. A declaração central da fé judaica, isto é, seu mais íntimo hino nacional, é o Shemá Israel!

שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְ־הוָה אֱלֹהֵינוּ יְ־הוָה אֶחָד

“Ouve, Israel: Adonai é nosso Deus, Adonai é Um.”

— Devarim/Deuteronômio 6:4


Essa unidade não é composta de partes, pessoas ou manifestações encarnadas. O Deus de Israel não é um ser dentro do mundo; também não é um ser que divide espaço com outros semelhantes a Ele. Ele não é homem, não nasce, não morre, não encarna e não se divide. A própria Torá codificou:


 לֹא אִישׁ אֵל

“Deus não é homem...” — Bamidbar/Números 23:19


Um dos mais importantes rabinos da tradição judaica, Rabi Moshe ben Maimon (Rambam, 1138–1204 EC), em sua obra Mishneh Torah (Hilchot Yesodei HaTorah), formula esse princípio e codifica que, para os judeus e justos entre as nações, Deus é um, não dois, nem mais de dois; Sua unidade não é uma “unidade composta”, como a unidade de qualquer coisa existente no mundo. Ele também afirma que Deus não possui corpo nem forma corporal. Eis aqui a segunda oposição fundamental entre as duas tradições:


A Trindade x A Unidade Absoluta

E, mesmo que haja cristãos contemporâneos vestidos com símbolos judaicos, afirmando com convicção: “Na minha sinagoga [igreja], nós rezamos o Shemá! Não somos como a Igreja romana!”, sabemos que, em seus espaços de culto, eles louvam Jesus e estudam seus evangelhos. E, em suas escrituras — sejam católicas, evangélicas ou messiânicas — afirma-se literalmente a mesma coisa, como em Colossenses 2:9:


ὅτι ἐν αὐτῷ κατοικεῖ πᾶν τὸ πλήρωμα τῆς θεότητος σωματικῶς.

“Porque nele [Jesus] habita corporalmente toda a plenitude de Deus.”


Esse texto é usado por diversas ramificações cristãs para afirmar que Jesus possui, corporalmente, a plenitude da divindade. Sinceramente, para nós, os cristãos podem acreditar no que bem entenderem. Contudo, para o Judaísmo, essa é uma das afirmações mais incompatíveis com a Torá em todo o Novo Testamento, pois associa divindade plena a um corpo humano, algo inconcebível dentro da unidade absoluta de Deus. Também está escrito nos livros deles, como em João 20:28:


ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου.

“Meu Senhor e meu Deus.”


Essa é uma das declarações mais fortes sobre Jesus. Tomé, aparentemente um dos seus discípulos, dirige a Jesus a expressão “meu Deus”. Mesmo que, para os justos entre as nações, isso soe um absurdo, o Catecismo da Igreja Católica declara, como dogma, que a Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. Esse mesmo Cristianismo confessa Jesus como o verdadeiro Deus. E contra isso, nem mesmo os cristãos mais judaizantes renunciaram.


Mesmo os grupos mais dissidentes, como os contemporâneos “judeus messiânicos” ou “nazarenos”, não escapam desse dogma central de fé, por meio do qual, segundo eles, “se adquire a salvação para a vida eterna”.

Para o Judaísmo, entretanto, essa linguagem não é uma variação legítima do monoteísmo bíblico de Israel. Ao contrário, pode ser entendida como uma das falsificações mais profundas já dirigidas contra o povo de Israel, o Deus de Israel, a Torá de Israel e a Terra de Israel.


Afinal, para Israel, adorar um homem como Deus é violar a espinha dorsal da Torá. Mesmo a Cabalá, que fala de ferramentas espirituais, mundos, atributos, Divina Presença, Ein Sof e Nomes Divinos, não autoriza uma leitura trinitária ou encarnacionista de Deus. A Cabalá judaica envolve muito mistério, mas nenhum desses mistérios aponta para uma Trindade dentro de Deus.


Do menor ao maior, a Cabalá se opõe a qualquer forma de divisão da Divindade, pois sua prática e sua ontologia estão enraizadas no Yichud Hashem — a unidade de Deus. Por outro lado, os livros do Cristianismo, preservados mesmo entre os autointitulados “judeus messiânicos”, codificam em sua religião a seguinte fórmula, como em Mateus 28:19:


πορευθέντες οὖν μαθητεύσατε πάντα τὰ ἔθνη, βαπτίζοντες αὐτοὺς εἰς τὸ ὄνομα τοῦ Πατρὸς καὶ τοῦ Υἱοῦ καὶ τοῦ Ἁγίου Πνεύματος

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”


O Cristianismo que se tornou religião imperial romana já não era uma pequena seita judaica. Ele havia passado por helenização, expansão gentílica, formulação dogmática, estrutura episcopal, debates cristológicos e separação progressiva da lei judaica. O Édito de Milão, em 313, concedeu tolerância ao Cristianismo no Império Romano. O Concílio de Niceia, em 325, convocado por Constantino, tratou da controvérsia ariana e da natureza de Cristo: se o Filho era uma criatura exaltada ou da mesma substância do Pai. A partir de Teodósio I, no final do século IV, o Cristianismo niceno-católico tornou-se a religião oficial do Império, e o Cristianismo passou de seita perseguida a fé dominante, entrelaçada ao governo imperial.


Isso não significa que Constantino “inventou Jesus” ou que Niceia “criou o Cristianismo do nada”. Essa simplificação é historicamente fraca. O que ocorreu foi outra coisa!

O Império Romano institucionalizou, favoreceu e consolidou uma forma específica de Cristianismo como ortodoxia imperial. A Igreja Católica, nesse sentido histórico, não é Judaísmo. É uma religião romano-cristã, com episcopado, concílios, credos, calendário próprio, sacramentos, teologia trinitária, leitura cristológica da Bíblia Hebraica e missão universal própria e obrigatoriamente distinta do Judaísmo.

A doutrina da Trindade é o centro da fé cristã tradicional.

O Catecismo Católico declara que a Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. A morte de Jesus é interpretada como um sacrifício necessário da Nova Aliança. Essa salvação, em suma, é centrada em Jesus como único salvador e mediador. Essa estrutura é perfeitamente compreensível como Cristianismo. Mas ela não pode ser apresentada, sob nenhum aspecto, como Judaísmo, nem perto disso. Para começar, o Judaísmo não aceita sacrifício humano como expiação universal em nenhuma época. É inaceitável, da perspectiva rabínica, que o Pêssach tenha sido substituído por Jesus. Também é inconcebível que a Torá tenha sido “cumprida” por um único ser humano no sentido de ser superada para as gerações seguintes. Além disso, o Judaísmo não aceita que Deus tenha encarnado, nem aceita que haja um mediador divino-humano necessário para a salvação. Sendo assim, a diferença entre as tradições fica explícita. Mesmo após essa exposição, há quem pergunte honestamente:


Se Jesus não é Deus e não é Messias, talvez possamos considerá-lo um profeta?

Não é tão simples. A Torá estabelece critérios para a profecia verdadeira. Um profeta não é verdadeiro apenas porque realiza sinais, inspira multidões ou fala em nome de Deus. Se ele conduz Israel para fora da Torá, ele é imediatamente rejeitado por Deus. Nas palavras de Moisés, nosso mestre, em Devarim/Deuteronômio 13, afirma-se que, mesmo se um profeta apresentar sinal ou maravilha, mas disser para seguir outros deuses ou desviar-se do caminho ordenado a priori por Deus no Monte Sinai, cancelando os mandamentos com frases como “o que corrompe não é o que entra, mas o que sai”, Israel não deve ouvi-lo:


לֹא תִשְׁמַע אֶל־דִּבְרֵי הַנָּבִיא הַהוּא

“Não ouvirás as palavras daquele profeta...”


O Judaísmo não avalia Jesus apenas como uma figura moral, pois mesmo a moral pode mentir, conforme verificamos das distintas seitas que emergiram e desapareceram na época do Segundo Templo. O que se avalia é a reivindicação cristã sobre Jesus. Entenda! Essa reivindicação afirma que Jesus é mais que profeta, mais que mestre, mais que justo: ele seria Filho unigênito de Deus, salvador universal, sacrifício final, mediador único e centro de uma nova aliança que relativiza ou supera a prática da Torá. Do ponto de vista judaico, um profeta verdadeiro jamais poderia ensinar Israel a abandonar a Torá, substituir a aliança sinaítica, abolir ou espiritualizar mandamentos, deslocar o culto para uma pessoa humana ou transformar a fé no Deus único em fé numa figura divina encarnada. Portanto, não há nenhuma possibilidade de Jesus ser aceito nem mesmo como profeta pelo Judaísmo. A questão não é antipatia ou inimizade, mas simples incompatibilidade estrutural com sua pregação.


Mas, se Jesus não é profeta, ao menos poderíamos considerá-lo um justo, já que operava milagres e salvações? Essa pergunta também exige cuidado. A palavra tzaddik — צדיק — significa justo, mas, no Judaísmo, ela não indica apenas uma pessoa simpática, ética ou compassiva com os mais necessitados. Um justo é alguém cuja vida está alinhada com Deus, Sua Torá, Seus mandamentos, humildade, reverência e fidelidade à aliança eterna de Israel. É possível que alguns historiadores descrevam Jesus como pregador judeu, mestre galileu, figura apocalíptica ou líder carismático. Mas o Judaísmo Rabínico não canoniza a imagem cristã de Jesus nem mesmo como um justo de Israel, porque sua figura está inseparavelmente ligada a um movimento que, mesmo nos dias atuais, leva milhões e milhões de pessoas a adorá-lo como Deus ou algo parecido, rejeitando a autoridade da Torá Oral, reinterpretando a Bíblia Hebraica contra Israel e, por muitos séculos, tentando converter judeus e justos entre as nações, propondo que o caminho de Jesus é o único possível.


Do ponto de vista judaico tradicional, não se chama de justo aquele cuja memória religiosa se tornou fundamento de uma fé que contradiz o Shemá Israel, substitui a Torá e conduz judeus para fora da aliança eterna firmada no Sinai. Essa é uma afirmação dura, mas necessária. Ela não é um ataque pessoal aos cristãos, muito longe disso. É uma delimitação teológica fundamental, inclusive para que possa haver honestidade intelectual. Um cristão pode venerar Jesus como Cristo e, sinceramente, não há por que contestá-lo ou tentar convencê-lo do contrário. Nosso objetivo não é convencer ninguém. O problema está no dogma e na obrigação cristã de tentar convencer um judeu fiel à Torá ou um justo entre as nações, alegando ser a continuidade de uma tradição milenar como o Judaísmo. Então, Jesus não é Deus, não é Messias, não é profeta, não é sábio e não é justo, o que ele é?

Aqui é necessário separar duas perguntas diferentes.

A primeira pergunta é: existiu algum Jesus, judeu do século I, executado sob Pôncio Pilatos? A maioria dos historiadores do Cristianismo primitivo aceita que sim: provavelmente existiu um pregador judeu chamado Jesus, ligado à Galileia, cuja morte por crucificação ocorreu sob autoridade romana no governo de Pôncio Pilatos. A segunda pergunta: o Jesus bíblico-teológico dos Evangelhos — nascido de virgem, operador de milagres, ressuscitado, Filho de Deus, salvador universal, Mashiach e Deus encarnado — é historicamente o mesmo Jesus judeu do século I? A resposta é não. Essas afirmações pertencem ao campo da fé cristã, da teologia e da confissão religiosa. Não há prova arqueológica direta, documento contemporâneo neutro ou verificação histórica externa que obrigue um judeu, um historiador ou qualquer pessoa fora da fé cristã a aceitar essas reivindicações. E também não há nada que nos obrigue a convencê-los do contrário.

Portanto, o Judaísmo não precisa negar a existência de um Jesus histórico para rejeitar o Cristianismo. Inclusive, isso seria uma armadilha apologética desnecessária. O Judaísmo não nega necessariamente que tenha existido um Jesus; no entanto, ele não cumpriu os critérios judaicos do Mashiach, não pode ser Deus segundo a Torá e não pode ser profeta, justo ou sábio da tradição se sua imagem religiosa conduz Israel para fora do monoteísmo absoluto e da observância da Torá. Mas será que existem registros históricos judaicos sobre Jesus? O Talmud menciona um personagem chamado Yeshu — ישו — em passagens polêmicas e complexas. Quando a literatura talmúdica fala de Yeshu, ela não o apresenta como profeta, justo, messias ou divindade. Ela o apresenta como figura associada a desvio, feitiçaria, sedução religiosa, zombaria dos sábios ou transmissão de ensinamentos rejeitados. A passagem mais conhecida está no Tratado de Sanhedrin 43a, que narra uma tradição preservada pelos sábios:


בְּעֶרֶב הַפֶּסַח תְּלָאוּהוּ לְיֵשׁוּ הַנּוֹצְרִי

“Na véspera de Pêssach, penduraram Yeshu, o Nazareno.”


A continuação nos diz o motivo:


עַל שֶׁכִּישֵּׁף וְהֵסִית וְהִדִּיחַ אֶת יִשְׂרָאֵל

“Porque praticou feitiçaria, incitou e desviou Israel.”


Antes de narrar as tradições talmúdicas sobre Yeshu, é necessário fazer uma distinção metodológica. O Talmud não apresenta uma “biografia de Jesus” no sentido moderno. Ele preserva tradições dispersas, algumas censuradas em edições medievais e outras restauradas em edições críticas. Em algumas passagens aparece o nome Yeshu ha-Notzri; em outras, Ben Stada, Ben Pandera ou Ben Pandeira. A tradição judaica posterior frequentemente uniu essas referências em uma memória polêmica contra o Jesus cristão. A tradição rabínica não preserva Yeshu como justo, profeta, sábio legítimo ou messias. Pelo contrário. Uma das tradições mais importantes aparece em Shabat 104b e Sanhedrin 67a, no contexto de uma discussão sobre escrita, marcas no corpo e feitiçaria. O Talmud menciona um personagem chamado Ben Stada e pergunta sobre sua identidade:


בן סטדא בן פנדירא הוא?

“Ben Stada é Ben Pandera?”


A resposta atribuída a Rav Chisda distingue entre o marido legal e o homem com quem a mãe teria se relacionado:


אמר רב חסדא: בעל סטדא, בועל פנדירא.

“Rav Chisda disse: o marido era Stada; o amante era Pandera.”


Em seguida, o próprio Talmud corrige a formulação e pergunta:


בעל פפוס בן יהודה הוא!

“Mas o marido dela era Pappos ben Yehudah!”


Então o Talmud reorganiza a tradição:


אלא אמו סטדא.

“Antes, sua mãe era chamada Stada.”


Mas novamente surge outra pergunta:


אמו מרים מגדלא נשיא הואי!

“Mas sua mãe era Miriam, que trançava os cabelos das mulheres!”


A conclusão talmúdica explica o nome “Stada” como um apelido ligado ao desvio conjugal, isto é, ao adultério:


כדאמרי בפומבדיתא: סטת דא מבעלה.

“Como diziam em Pumbedita: esta se desviou de seu marido.”


Essa passagem é extremamente importante porque mostra a tradição rabínica segundo a qual o personagem conhecido como Ben Stada / Ben Pandera teria uma origem familiar marcada por suspeita de adultério. Sua mãe é chamada Miriam, descrita como mulher que trançava os cabelos das mulheres, e Pandera aparece como o homem associado à concepção. É aqui que nasce, na tradição judaica, a oposição direta à doutrina cristã do nascimento virginal. Enquanto o Cristianismo afirma que Jesus nasceu de uma virgem pelo Espírito Santo, a tradição rabínica responde com outra narrativa: ele teria nascido de uma relação irregular, depois escondida sob a alegação de milagre. Outra tradição associada a Ben Stada afirma que ele teria trazido feitiçaria do Egito por meio de marcas feitas em seu próprio corpo:


בן סטדא הוציא כשפים ממצרים בשריטה שעל בשרו.

“Ben Stada trouxe feitiçarias do Egito por meio de incisões sobre sua carne.”


O Talmud responde que não se pode trazer prova a partir de um tolo:


שוטה היה ואין מביאין ראיה מן השוטים.

“Ele era um tolo, e não se traz prova a partir dos tolos.”


Essa passagem é decisiva. Jesus é associado a práticas proibidas, feitiçaria e comportamento desviante sob a perspectiva dos rabinos de sua época. A menção ao Egito também é significativa, pois o Egito aparece em muitas tradições judaicas como lugar de magia, impureza ritual e sabedoria desviada quando separada da santidade da Torá. Também nas ramificações esotéricas cristãs se aceita, às vezes, a possibilidade de que Jesus tenha aprendido magia no Egito. Outra tradição aparece em Sotá 47a e Sanhedrin 107b. O texto começa com um princípio educativo:


לעולם תהא שמאל דוחה וימין מקרבת.

“Sempre a esquerda deve afastar, e a direita deve aproximar.”


O sentido é: mesmo quando um mestre precisa repreender ou afastar um discípulo, deve deixar aberta uma porta de retorno. O Talmud então cita exemplos negativos de mestres que afastaram discípulos com dureza excessiva. Um deles é Elisha com Gechazi. O outro é Yehoshua ben Perachya com Yeshu ha-Notzri (Jesus de Nazaré). Segundo a narrativa, durante uma perseguição aos sábios, Yehoshua ben Perachya fugiu para Alexandria, no Egito, acompanhado por Yeshu. Quando a situação em Israel melhorou, ele recebeu a mensagem de que poderia retornar. No caminho de volta, hospedaram-se em uma estalagem. O anfitrião os tratou com grande honra. Yehoshua ben Perachya comentou:


כמה נאה אכסניא זו.

“Como é bela esta hospedaria” ou “como é agradável esta hospedagem.”


Yeshu entendeu de maneira imprópria, olhando para a mulher, e respondeu:


רבי, עיניה טרוטות.

“Meu mestre, os olhos dela são defeituosos.”


Em outras palavras, enquanto o mestre elogiava a hospitalidade ou a qualidade da hospedaria, Yeshu fez um comentário superficial e desrespeitoso sobre a aparência física da mulher. O problema não era apenas uma observação estética. Para o Talmud, isso revelava um olhar corrompido, incapaz de captar a dignidade da situação e a intenção elevada do mestre. Yehoshua ben Perachya reagiu com severidade:


רשע, בכך אתה עוסק?

“Ímpio! É com isso que você se ocupa?”


Em seguida, ele colocou Yeshu em excomunhão ou rejeição discipular. Yeshu tentou retornar várias vezes, mas o mestre não o recebeu. Em certo momento, Yehoshua ben Perachya estava recitando o Shemá. Yeshu veio diante dele. O mestre pretendia aceitá-lo de volta, mas, por estar no meio da recitação, fez um gesto com a mão para que aguardasse. Yeshu interpretou o gesto como rejeição definitiva. Então, segundo a narrativa, Yeshu tomou um tijolo, colocou-o de pé e o adorou. Yehoshua ben Perachya então lhe disse:


חזור בך.

“Retorna de ti”.


Yeshu respondeu com um dito amargo:


כך מקובלני ממך: כל החוטא ומחטיא את הרבים אין מספיקין בידו לעשות תשובה.

“Assim recebi de ti: todo aquele que peca e faz muitos pecarem não recebe oportunidade suficiente para fazer teshuvá.”


A tradição conclui que Yeshu praticou feitiçaria, incitou e desviou Israel até o máximo de seu potencial. O valor dessa passagem é enorme. Ela mostra que o Talmud interpreta a queda de Yeshu como resultado de uma combinação entre mau olhar, rejeição discipular, idolatria e incapacidade de retornar. Ao mesmo tempo, a própria passagem critica o mestre por tê-lo afastado com ambas as mãos. Ou seja, o texto não transforma Yeshu em inocente, mas também ensina que um mestre deve saber repreender sem fechar totalmente a porta do retorno, para que não surjam falsos líderes em busca de honra e poder. A passagem mais explícita sobre a condenação aparece em Sanhedrin 43a:


ישו הנוצרי יוצא ליסקל על שכישף והסית והדיח את ישראל.

“Yeshu, o Nazareno, sai para ser apedrejado porque praticou feitiçaria, incitou e desviou Israel.”


E o arauto dizia:


כל מי שיודע לו זכות יבוא וילמד עליו.

“Quem souber algo em seu favor, venha e ensine em sua defesa.”



O Talmud conclui:



ולא מצאו לו זכות ותלאוהו בערב הפסח.

“E não encontraram mérito em seu favor, e o penduraram na véspera de Pêssach.”


Essa passagem é uma das mais importantes para compreender a oposição rabínica a Yeshu. A acusação não é simplesmente política. Ela é religiosa: feitiçaria, incitação e desvio de Israel, isto é, conduzir judeus para fora da fidelidade à Torá. O fato de o texto mencionar a véspera de Pêssach também é significativo, pois cria um contraponto direto com a narrativa cristã da paixão. O Cristianismo transformou a morte de Jesus em sacrifício pascal, “Cordeiro de Deus” e centro da salvação. A tradição rabínica, por sua vez, não a interpreta como sacrifício redentor, mas como execução de alguém acusado de desviar Israel. Outra passagem polêmica aparece em Gittin 57a. Nela, Onkelos invoca figuras do passado e pergunta sobre Israel. Quando consulta Yeshu, a tradição o retrata de maneira negativa no mundo vindouro. A razão apresentada é:


שלעג על דברי חכמים.

“Porque zombou das palavras dos sábios.”


Essa passagem polêmica é teologicamente clara. A tradição rabínica associa Yeshu ao desprezo pelos sábios. E, para o Judaísmo Rabínico, zombar dos sábios significa rejeitar a própria cadeia de transmissão da Torá. Esse conjunto de tradições mostra que o Talmud não reconhece Yeshu como profeta, tzadik, messias ou mestre legítimo. A memória rabínica é negativa: Yeshu aparece como símbolo de desvio religioso, ruptura com os sábios e condução de Israel para fora da Torá. Para o Judaísmo, portanto, a rejeição de Jesus não é um detalhe secundário, mas uma consequência direta da fidelidade ao Deus de Israel, à Torá e à autoridade do Judaísmo Rabínico.


Logo, não há prova histórica das reivindicações cristãs sobre Jesus. Alguns poderiam, do alto de sua arrogância, afirmar: “Mas também não há provas dos milagres de Moisés”, e coisas semelhantes. Humildemente, disfarçando a inigualável majestade da Torá, da qual todos eles extraem sua vã autoridade, responderíamos: “Contudo, não há sequer um de nós tentando convencê-los a acreditar e servir ao nosso Deus, tampouco da forma como o fazemos.” Isso deveria ser suficiente para encerrar a discussão. Mas há dois mil anos existem forças empurrando, goela abaixo, blocos sobre blocos de lama e barro que não sustentam nenhum fundamento na tradição bíblica original.

A diferença entre Judaísmo e Cristianismo não é apenas uma discordância sobre Jesus. É uma diferença sobre o próprio eixo da realidade religiosa. No Judaísmo, o caminho de retorno a Deus é retornar à própria essência, buscando a reparação das falhas de caráter para alcançar o Bem Perfeito; tudo isso por meio da oração, da justiça social e do cumprimento dos mandamentos de Deus. Já no Cristianismo, o caminho de retorno para Deus é a fé absoluta em Jesus como salvador, isto é, o reconhecimento de que existe um pecado original que somente pode ser redimido pelo sangue de Jesus. Em muitas leituras cristãs popularizadas, Deus passa a disputar o domínio dos mundos com outra força, o Satã, apresentado como personificação do Mal. Logo, a redenção é centrada na morte e ressurreição de Jesus como único meio possível, já que o ser humano estaria completamente corrompido.

No Catecismo Católico, aprende-se que a morte de Cristo como sacrifício pascal simboliza o sacrifício da Nova Aliança. No Judaísmo, contudo, Deus perdoa diretamente cada ser humano por meio do esforço sincero de reparar suas falhas. Não há necessidade de um homem-deus morrer para que Deus possa perdoar. O livro de Yonah inteiro demonstra que uma cidade não israelita, Nínive, pode retornar de seus maus caminhos e receber misericórdia divina sem necessidade de cruz, encarnação divina ou sacrifício humano. No Judaísmo, mesmo o sangue de sacrifícios animais no Templo tinha função ritual específica dentro da lei judaica e nunca foi um mecanismo mágico de salvação eterna.

Após a destruição do Templo, oração, meditação, atos de caridade e retorno à Torá permaneceram como caminhos judaicos legítimos de aproximação a Deus. A tradição rabínica não concluiu, em nenhuma etapa de seu desenvolvimento: “se não há Templo, precisamos de Jesus”. Muito pelo contrário: concluiu que, sem Templo, Israel continua servindo a Deus por meio daquilo que é possível, isto é, o estudo da Torá, a oração, o retorno a Deus e os atos de justiça.

Portanto, o problema judaico com Jesus não começa em milagres, nascimento, genealogia ou cronologia. Começa na espinha dorsal. Se Jesus é Deus, então o Cristianismo deixou o monoteísmo judaico. Se Jesus não é Deus, então o Cristianismo tradicional está errado em sua doutrina central. Em ambos os casos, a síntese “judaico-cristã” desmorona.

Há um ponto importante que precisa ser destacado. A minha defesa do Judaísmo autêntico não exige negar a existência histórica, cultural e religiosa do Cristianismo. Pelo contrário. O Cristianismo deve ser compreendido como Cristianismo; é isso que eu e outros defendemos. As Igrejas Católica e Ortodoxa têm sua identidade milenar. O Protestantismo tem sua identidade. Cada uma possui doutrinas, sacramentos, textos, santos, concílios, liturgias e história própria. Elas não precisam fingir ser Judaísmo. E nem mesmo se acredita que elas queiram isso. Entende o que eu pretendo com minhas modestas palavras? O problema não é o cristão ser cristão. O problema é o cristão dizer que seu Cristianismo é “Judaísmo verdadeiro”, que a Igreja é “Israel espiritual”, que o Novo Testamento corrige a Torá, que Jesus é o verdadeiro significado secreto de todos os textos judaicos, ou que judeus precisam ser “completados” por meio de uma fé que contradiz o Judaísmo. A honestidade exige separar as coisas: Judaísmo é Judaísmo. Cristianismo é Cristianismo.

E o que é o Judaísmo Messiânico, movimento que se popularizou nos últimos anos no Brasil? O chamado “Judaísmo Messiânico” moderno não é uma continuação do Judaísmo do Segundo Templo, como muitos de seus líderes costumam dizer. A prova disso é básica e, para o nível de nossos leitores, quase elementar. Pergunte a esses líderes se existem documentos históricos tradicionais sobre os quais possamos nos debruçar para conhecer as tradições de Jesus e sua verdadeira profissão de fé, o suposto “Judaísmo Messiânico”. Em meio aos gaguejos, eles dirão que tais documentos não existem — ainda que tentem disfarçar a fragilidade de sua posição. Esse movimento é, majoritariamente, um movimento cristão missionário surgido de esforços protestantes e evangélicos para converter judeus usando linguagem, símbolos e estética judaica. Essa é a estratégia que vem enganando, inclusive, muitos descendentes de judeus forçados da época da Inquisição.

A organização My Jewish Learning descreve o Judaísmo Messiânico como um movimento que combina elementos judaicos com fé cristã em Jesus, mas observa que todas as principais denominações judaicas rejeitam a ideia de que ele seja uma forma legítima de Judaísmo. Também se aponta que muitos judeus messiânicos rejeitam a autoridade rabínica e interpretam a Bíblia Hebraica por meio do Novo Testamento, o que é um erro muito básico, considerando que são escrituras distintas: o Tanach foi escrito originalmente em hebraico e aramaico, enquanto os Evangelhos foram escritos em grego. Mas enfim.

A própria Association of Religion Data Archives descreve o Judaísmo Messiânico como associado ao evangelicalismo protestante e desenvolvido fortemente nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, com crença em Jesus como Messias, divino e salvador. Uma fonte messiânica, Chosen People Ministries, reconhece que o movimento passou de “Hebrew Christian” para “Messianic Jewish” na década de 1970 e fala explicitamente de compartilhar o Evangelho com o povo judeu. Isso confirma o caráter missionário desse movimento: o objetivo não é preservar o Judaísmo Rabínico, mas persuadir judeus a aceitar Jesus. Teologicamente, isso é inaceitável. Convenhamos. No Brasil, estudos acadêmicos sobre comunidades judaico-messiânicas mostram que a primeira “igreja messiânica” brasileira em São Paulo teria sido fundada em 1951 por um missionário norte-americano, Emanuel Woods. Pesquisas também descrevem processos recentes de “judaização” de igrejas evangélicas e pentecostais, isto é, adoção de símbolos judaicos por comunidades cristãs.

Do ponto de vista do Judaísmo Rabínico, isso não é Judaísmo. Pode usar kipá, talit, shofar, estrela de David, dança israelense, palavras hebraicas, nomes como “Yeshua” e estética de sinagoga. Mas, se confessa Jesus como Messias divino, aceita o Novo Testamento como revelação, rejeita a autoridade da Torá Oral e não se submete à lei judaica reconhecida, então pertence ao Cristianismo e continua do lado de lá do rio, muito distante do verdadeiro monoteísmo abraâmico. Doravante, é legítimo que cristãos tenham sua religião. O Cristianismo tradicional, como religião independente, possui história, teologia e identidade próprias. O problema começa quando uma comunidade cristã se apresenta como “Judaísmo” para alcançar judeus ou pessoas fascinadas por Israel. Nesse caso, do ponto de vista judaico, trata-se de apropriação religiosa e confusão identitária, algo gravíssimo para alguém que se diz judeu, rabino e até mesmo cristão.

Quando alguém se apresenta como “rabino” sem reconhecimento rabínico judaico, ou como “sinagoga” sem pertencer ao Judaísmo reconhecido, a crítica é necessária. A palavra “fraude” deve ser usada com responsabilidade jurídica caso a caso; mas, teologicamente, apresentar Cristianismo como se fosse Judaísmo é uma óbvia falsificação da identidade judaica, e mesmo uma criança pequena pode, com pouco esforço, perceber tamanha concupiscência.

 
 
 

1 comentário


amaraljosiane821
há 12 horas

Texto excelente e bem explicado! Parabéns!

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